Clube da Dona Menô
Dona Menô
A Mudança (03)
O Transporte


 
Chegou o dia de trocar de barraco. Tudo encaixotado e chega o caminhão baú. Ao ver o carro, quase caí pra trás: pequeno demais. Como eu tive que economizar, contratei uma empresa bem em conta, em relação às outras.
 
Por isso mesmo fiz questão de embalar tudo para evitar que eles se descuidassem e quebrassem tudo. Era só pegar e transportar. Só que faltavam algumas caixas para serem fechadas e pedi ao carregador uma fita adesiva. Ele disse: “Esqueci de trazer...”. 

Aí é que eu quase enfartei. Se o cara esquece um instrumento básico para seu trabalho, imaginem o que teria ainda para acontecer!

Os rapazes faziam o trabalho em slow motion. Sei que sou rápida e quero tudo para ontem, mas eles eram umas tartarugas. O que me parecia é que não entendiam do riscado. Pegavam qualquer coisa sem uma regra, sem um raciocínio. Se é um caminhão pequeno, o que entram em primeiro lugar são as caixas menores e depois os móveis grandes, pois assim ficaria mais fácil para serem colocados no lugar de destino.

Eu olhava da varanda e via minhas coisas todas espalhadas na calçada, por horas. As crianças da escola em frente ficavam fuçando tudo. Eu estava a ponto de gritar e me jogar da janela em cima dos homens, principalmente quando vi que eles coçavam a cabeça e batiam papo enquanto tudo meu estava espalhado no chão. O que pensavam? Certamente não eram os mesmos pensamentos que eu tinha, que eram homicidas naquele momento.

Depois de muitas horas, com tudo apertado no caminhão, pronto para seguir  para meu novo endereço, veio o motorista e disse: “Agora espere um pouco, pois vamos procurar um lugar para almoçar".

Eu não sabia se era um pesadelo ou se realmente estava acontecendo aquilo. Minhas coisas num vagão, muitas horas ainda faltavam para descarregar e ele queria almoçar... 
 
Se eu estivesse de bom humor, teria sugerido comprar pizza pra todo mundo, mas eu estava azeda, insuportável, e disse: “Olhe aqui, cara, eu sou cirurgiã. Imagine que eu esteja lhe operando e que tenha chegado a hora do almoço. O que acha se eu parasse a cirurgia?!”. 

Ele disse que assim não valia, pois cirurgia é questão de vida ou morte. Falei que não era nada disso; que tanto na minha profissão quanto na dele o que valia era a responsabilidade. Não conformado, ele alegou que não era possível um trabalhador ficar 9 horas sem comer...  Então, eu sou faquir! E se demoraram tanto, não era minha culpa.

Um dos funcionários me disse “A senhora assusta...”. Eu respondi: “O que assusta é o que eu gasto para fazer uma mudança. E não é só pelo dinheiro, mas pelo cansaço. Acho que eles "entenderam" meu protesto e continuaram até acabar a saga.

Os vizinhos do antigo e do novo endereço comentavam da lentidão dos funcionários. Meus amigos me recriminavam por eu ter chamado a tal empresa. Crítica era o que menos eu gostaria de ouvir naquela situação. 

Comecei a sentir tonteiras, talvez pelo sono atrasado, e sentei entre os "entulhos", já na nova moradia. Olhei para dentro de mim e vi meu passado e por tantas que já passei. Eu tentava me consolar: aquilo era apenas uma fase e iria passar.

Ao abrir os olhos, vi minha realidade em caixas. Foi quando a corretora me ligou e avisou que o gás tinha sido lacrado pela CEG, por haver um vazamento. Eu teria que tomar banho frio. Nem um cafezinho eu poderia fazer. O inferno de Dante estava completo: sem aquecimento, sem Internet, sem telefone, sem cama, sem nada. 

Empurrei para o chão um monte de coisa que estava em cima do colchão e dormi, em posição fetal, pedindo para voltar para o útero materno.