Clube da Dona Menô
Dona Menô


A carta da despedida


Tomei coragem para transcrever a carta para minha mãe, que escrevi num corredor de um CTI, enquanto a mesma tinha sido sedada para morrer em paz.

Não leiam apenas com o cérebro, mas transfiram-se para a situação (e que nunca precisem sentir na realidade tal drama).

Foram anos de luta, dedicação e muita revolta. O cansaço beirou o esgotamento total.

Meu amor por aquela pessoinha tão especial me impelia às mais desesperadoras atitudes, nem sempre coerentes, nem sempre politicamente corretas, mas era o que eu tinha capacidade de realizar.

Para tantas pessoas que, neste momento, passam por dramas iguais, saibam que nada neste mundo pode ser mais forte que o amor e tudo que nasce dele não pode ser destruído pelas coisas do mundo, principalmente pelo egoísmo e descaso.

Além da ciência do dever cumprido, esta caminhada foi para mim uma lição, um aprendizado, que vai me ajudar para sempre em minha profissão e na minha trajetória nesta terra.

A todos os pais, amigos, parentes, médicos e profissionais de saúde, que passam por este tormento, tenham paz de espírito na hora da decisão, mas façam todo o possível para serem para o doente aquilo que gostariam que alguém fosse para vocês. Aprendam que a doença não é o pior castigo e, sim, a indignidade de ser deixado em uma cama como um corpo que não é mais produtivo, à beira do esquecimento.

Para um doente terminal o mais importante é ter apoio e conforto, ser entendido e protegido, para que a morte não seja simplesmente a interrupção de uma vida sem sentido. O carinho nestas horas é como o retorno ao útero materno, que nos devolve às nossas origens, para onde todos voltaremos.

Que seja por dignidade mais do que por obrigação. É mais que respeito ao próximo. É o respeito a nós mesmos, enquanto seres racionais.

Todos nós temos valores e não basta chorar a morte ou tratar a doença. É necessário para nosso crescimento moral que sejamos íntegros e incansáveis nas nossas convicções. É preciso aliviar a dor do corpo e, principalmente, a do espírito.

Sei que vou me transportar para aquele dia como se fosse hoje. Estou mais fraca, mas não menos corajosa. Apenas mudei minhas metas e procuro a razão da minha existência aqui neste mundo. Se é por aqui que vou começar esta caminhada, não sei. Apenas achei o meu modo de desabafar e me colocar perante de todos.
Vamos lá:

Mãe

Até agora eu segurei a barra. Tentei desviar a tristeza e revertê-la em força, atitudes, trabalho e até em raiva.

Tenho certeza que fiz, até aqui, tudo o que uma filha - médica ou não - poderia fazer.

Mais do que nós duas, ninguém sabe o que se passou nesses meses todos de sofrimento e agonia.

As pessoas tiveram uma noção superficial do que acontecia, entretanto é nos detalhes, no dia a dia, ao longo das horas, que os verdadeiros momentos são feitos. Só mesmo passando situações desse tipo para as pessoas à nossa volta saberem de tudo.

Hoje eu tive que aceitar, sem contestar, que está chegando o fim de sua existência perto de mim.

Tive que permitir que sua consciência fosse apagada, para que seu sofrimento físico fosse amenizado.

É triste e patético saber que não dá mais e, ao mesmo tempo, achar que nós tomamos condutas deste tipo por sermos ignorantes, pequenos, limitados.

Tirar a consciência de alguém para sempre me parece, neste momento, como tirar a alma mantendo a vida.

Agora a senhora está lá dentro, a metros de mim – um corpo respirando por aparelhos, num sono que será o início de uma nova vida em algum lugar.

Até quando a senhora vai suportar? O que acontecerá daqui pra frente? Quanto mais eu vou ter que assistir, vivenciar, sem nada poder fazer? Para onde vai aquela mulher tão batalhadora? Será que vão cuidar bem da senhora?

Até aqui eu lutei. Cheguei várias vezes à exaustão, briguei, discuti, tomei decisões, protegi. Fiz o que podia para evitar o máximo de sofrimento e lhe dar, pelo menos, um pouco de alívio e felicidade.

Consegui lhe devolver à sua casa algumas vezes; dei-lhe esperança de poder ver o seu cachorro, arrumar suas coisinhas na casa, molhar suas plantinhas.

Sofri todas as vezes que voltávamos para os hospitais, mas sempre intencionada a solucionar os problemas, independente dos médicos e dessa medicina precária que as pessoas estão exercendo, crentes de serem superiores.

Pobres. Deixaram pra trás, em algum lugar, a humildade e a bondade. Não alcançaram a sabedoria e acham que estão a um passo da perfeição e competência, enquanto são, na verdade, fantoches dos seus próprios conceitos ou preconceitos.

Poucos foram “médicos”, com tudo o que a medicina ensina.

Agora lhe falo por carta na esperança de que possa me ouvir. Eu estou ao seu lado. Estou sentindo seu sofrimento.

Não aguentei lhe ouvir pedindo ajuda e dizer que o dia estava horrível, sem saber que aquele era o final. Doeu em mim ver sua revolta brigando com a enfermeira idiota, que lhe mandava ficar quietinha, deitada, por ter  implorado para lhe tirarem a dor.

Sofri com a demora dos médicos para tomarem uma decisão. Perdoe-me por não ter tido condições de fazer melhor.

Estou aqui tão cansada, triste e só, como se todos esses sentimentos viessem à tona de uma só vez. Nesses meses ou anos de luta eu tive que conviver com o silêncio das madrugadas, com a dúvida, medo, a insegurança e, na maioria das vezes, muito só.

Revoltei-me com pessoas que deveriam estar ao seu lado mais do que do meu. A senhora não sabia da dimensão dos seus problemas e pelo que iria passar, mas não faltou oportunidade para eles ajudarem. Vi sua decepção na visita que não recebeu, na tristeza que é passar a vida toda lutando em vão pela união e só ver a desgraça pairar na sua família. Minha mágoa pode parecer um exagero, mas é por causa deste momento (que eu sabia que ia e como ia chegar), que eu tanto me debatia.

Esta noite, este momento, significam o início do fim. Agora não adianta mais chorar ou fazer cenas teatrais. O que podia sido feito pela senhora já passou.
 
Cada um tem o seu destino. Espero que todos tenham o seu merecimento e respondam pelos seus atos – ao seu tempo, cada um à sua hora.

Tentei lhe dar a merecida morte e amenizar o seu fardo, como o meu também. Eu preciso que a senhora morra logo, porque é muito sofrido ver seu corpo lutando à toa. Também preciso descansar para retomar o rumo da minha vida.

Mãe, a senhora vai me deixar. Vai para algum lugar um pedaço de minha vida que pensava ser indestrutível - pessoa mais amiga, mais carinhosa, divertida, inteligente e forte que conheci, com um imensurável amor por todos.

É por este amor divino que peço:

Vá, mãe. Vá embora. Deixe sua alma encontrar o caminho de Deus, porque é perto Dele que vai estar.

Obrigada, mãe. Obrigada por sua existência.

Leila Marinho Lage
Rio, 8 de julho de 2003