Clube da Dona Menô
Dona Menô
Raça e Preconceito, cap III



Meu irmão preto


Sou branca, mas um dia meu dentista me avisou que as manchas que tenho na gengiva são características da raça negra. Isto ele me avisou quando eu era bem jovem, se bem que bem antes eu já tinha percebido que meu cabelinho da infância era pixaim.

Eu até tinha vergonha, não porque eu era igual aos negros, mas porque era moda aqueles cabelos das propagandas de TV na década de 50, 60 etc. Meus irmãos e minha mãe tinham cabelos escorridos, mas eu saí como meu meu pai, morenão, nadador de Copacabana, galanteador, bigodinho fino e reto, mas cabelinho tipo mola...

O jeito foi apelar para o Wellin Alisante, que me acompanhou por toda a minha adolescência até eu descobrir que ter cabelo encaracolado era legal. Começou, então, a fase em que eu nem penteava o cabelo. Secava-os, sacudia a cabeça e parecia que eu tinha saído do salão de beleza. Assim foi durante a fase da faculdade, lá entre os 17 aos 20 e tantos.

Com o tempo o cabelinho ruim melhorou - ficou uma coisinha feia, fina, que nem é lisa, nem enrolada, que me obriga a fazer "escovas", o que detesto! E as manchas escuras estão aqui na minha boca...

Eu não podia ter raiva da raça negra, até porque eu fui criada com meu falecido irmão Aldenor. A única coisa que nos diferenciava era a cor e eu nunca liguei para isso! Só comecei a perceber que algo estava estranho quando ele próprio me contava o que acontecia ao nosso redor e eu nem tinha noção.

Uma vez ele me disse que para pegar um táxi à noite ele tinha que se preocupar com seus trajes. Ele me falava que um negro andando sozinho numa rua deserta não era bem visto; que o negro tinha que aparentar muito mais estampa que um branco, se quisesse se "destacar" como um igual; que chinelo, tênis, bermuda e boné davam a impressão de malandro...

Isto ele falou décadas atrás. Imaginem hoje.! O mundo piorou! Eu não aceitava aquilo, mas era verdade.

Tanto é que um dia num supermercado, quando descobriram que algo foi roubado no estabelecimento, os seguranças detiveram os fregueses para averiguação. O menos suspeito seria meu irmão, que estava bem longe do ocorrido, mas foi o primeiro a ser revistado. Ele avisou que se achassem algo em sua bolsa, tudo bem, mas se nada encontrassem, ia ser uma merda federal!

Não deu em nada. Ele no fundo agradeceu não ter sido espancado pra confessar... Quem tinha roubado algo no lugar foi uma senhora branca e clepto, com aspecto inofensivo, com a cara da nossa avó.

Ele sempre foi discriminado, até em situações muito rotineiras. Era um cara com uma cultura enorme, desenhava como ele só, uma inteligência invejável - e me ensinou muito física quando eu fazia vestibular, mas nunca teve lá muita chance na vida. Certamente o que pesou muito foi a sua cor e as características físicas de um autêntico negro.

Já começou que quando ele nasceu, irmão de muitos morenos claros, veio Aldenor muito pretinho. Ele me dizia que até a família ria disso - sem maldade, mas ria... Imaginem essas brincadeiras na cabeça de uma criança...

Uma dia ele se ofendeu quando eu falei que ele era meu irmão preto. Eu jamais pensei que isso pudesse magoá-lo. Eu não pedi perdão, porque achei que seria ridículo ser perdoada  por uma coisa óbvia e tão inocente de minha parte.

Ele era meu irmão e teve que aturar o apelido, até entender que eu sentia orgulho disso.

Foto e texto de Leila Marinho Lage
Pintura de Leila Regina Ullmann
Rio, 15 de novembro de 2010

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